Enchanted Forest, 2014
Acrílico Sobre Tela
 176 x 245 cm

PROJECTO SINESTESIA

GABRIEL GARCIA

Curadoria Miguel Matos

 

O Projecto Sinestesia parte do cruzamento da minha experiência como crítico de arte e curador, com a actividade de crítico de perfumaria e editor do site americano fragrantica.com. É minha convicção que o olfacto tem sido desprezado como um dos sentidos envolvidos na fruição da arte e como tal decidi convocar a perfumaria como forma de arte em diálogo com a arte da pintura. Este diálogo deu origem a uma exposição invulgar e inédita em Portugal. O desafio foi proposto ao pintor Gabriel Garcia para que de forma imediata pintasse imagens sugeridas pelo estímulo de perfumes de autor. Fragrâncias invulgares e por vezes perturbadoras, que evocam sensações e levam à formação de cenários mentais, foram traduzidas em imagens nas telas de Gabriel Garcia. O princípio pelo qual esta exposição se rege tem a ver com a colaboração diária entre curador e artista. Com base na troca de ideias e de estímulos sensoriais realizada a partir da selecção prévia de doze perfumes. A escolha destes aromas, feita pelo curador, regeu-se pelas capacidades evocativas de cada composição olfactiva, ou pela sua invulgaridade e até pelo carácter iconoclasta que se pode sentir em criações culturais olfactivas que muitas vezes passam por meros objectos de consumo. É assim que surge uma exposição em que a visão e o olfacto são convocados em simultâneo, como resultado da livre associação de ideias e da utilização das metodologias surrealistas, muito caras a Gabriel Garcia como parte de suas origens plásticas. A libertação da figuração humana e a entrada num domínio de paisagem abstractizante e de estética surrealista são elementos de partida nesta exposição. Ver e cheirar a arte, recorrer à memória e às sensações do inconsciente, num jogo que entra nos limites do irracional e do animal. É esta a proposta. O resultado são imagens que nem sempre se relacionam directamente com os cheiros, pois são interpretações automáticas e pessoais do artista e do curador. Tudo se mistura, nada é objectivo. Tudo tem a ver com a memória pessoal, com as emoções primitivas, com o instinto.

Miguel Matos


PER FUMMUM

TERESA GONÇALVES LOBO

Curadoria Miguel Matos


“Todo aquele que mergulhar nas profundezas da sua arte, à procura de tesouros invisíveis, trabalha para elevar esta pirâmide espiritual, que alcançará o céu”.

- Wassily Kandinsky

É uma via ascendente, a do perfume e a do espírito. Per Fummum. Os primeiros registos relacionados com a existência de perfumes datam de 2000 a.C, no Egipto. Nessa época, nos funerais, era queimado incenso em homenagem às múmias e “considerava-se que o perfume era o suor dos deuses”. Foi assim, com esta dimensão espiritual e sagrada, que o perfume surgiu como culto olfactivo. As resinas aromáticas foram a primeira forma de oferenda em forma de fragrância, através do acto de queimar as mesmas, libertando fumos perfumados. É daqui que aparece a palavra perfume, do latim per – através – e fummum – fumo. Antes dos unguentos, dos perfumes em óleo ou em álcool aplicados sobre a pele, o perfume via-se a subir pelo ar em nuvens de eflúvios. Ainda hoje, em imagens criadas para ilustrar perfumes, é frequente a representação do perfume a sair de forma visível a partir de um frasco de vidro, em serpenteantes e ascendentes linhas volutas. Foi observando estas formas de representação da trajectória ascendente de um perfume através do ancestral fumo ou mesmo de vapores em nuvens ou lufadas que sobem no ar, que me surgiu como evidência o trabalho de Teresa Gonçalves Lobo. Os seus desenhos e pinturas, quase sempre subtis, delicados e de movimentos por vezes lentos, outras mais enérgicos, são frequentemente realizados em direcção vertical, ascendente, de subida. Uma espiritualidade, uma ligação íntima com o instinto e aquilo que não se consegue explicar por palavras, está sempre residente nas linhas e forças presentes nestes trabalhos em papel. Cada desenho de Teresa é um reflexo da sua inspiração, da sua expiração, do peso do seu corpo e da necessidade de se ligar fisicamente à arte que produz. Daqui nasce um diálogo entre o corpo e o espírito, ligados entre si.
Se é da dimensão espiritual das origens do perfume que eu falo, é crucial referir a mediação física que se faz entre perfume e o intelecto, pois se toda a apreensão do mundo se faz através dos sentidos, o olfacto é o mais directo, ao consistir na entrada de moléculas odoríferas dentro do corpo. É uma penetração literal que assim se realiza. Se aludirmos ao caminho vertical que um perfume realiza ao se libertar da sua fonte, é com uma aspiração do nosso corpo que se interrompe essa ascendência. O perfume tem uma capacidade inebriante capaz de invocar estados de elevação da mente e os rituais religiosos souberam tomar proveito disso. Os desenhos de Teresa Gonçalves Lobo não são representações, são caminhos, estradas percorridas ao sabor da intuição da artista. São de carácter abstracto, mas possuem poderes evocativos subjectivos. E foi nessa relação entre a obra física e o receptor da mesma que surgiu em mim a ideia de subida sinuosa, como fumo, como vapor, como transcendência visível e em devir. As manchas e as linhas de Teresa são como fumo de incenso e têm a matéria do carvão. Vivem da sua combustão, sobem, rodopiam e seguem subindo, predestinadas mas sem caminho definido. Cada marca sobre o papel é livre, imprevisível mas em ascendência inevitável, desaparecendo diáfana, liberta no ar. Como perfume. Per fummum...

Miguel Matos